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  • 7 de ago de 2016


    AUSÊNCIA

    Rio de Janeiro , 1935

    Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
    Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
    No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
    E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
    Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
    Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
    Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
    Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
    Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
    Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
    Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
    Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
    Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
    E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
    Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
    Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
    E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
    Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

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